quarta-feira, 3 de março de 2010

Voluntário do C.V.V.

 

Certo dia, ele resolveu ser voluntário do C.V.V. – o Centro de Valorização da Vida. Não que houvesse algo nele de nobre ou altruísta, pelo contrário, era um grande filho da mãe. A lógica era outra:  passar o dia todo ouvindo pessoas ferradas e acabadas pra se sentir menos ferrado e acabado. O trabalho era relativamente simples: atender ligações de gente deprimida, traumatizada ou com impulso suicidas, citar um ou outro jargão de auto-ajuda e pronto. Ficou sabendo que uma semana antes, um voluntário não aguentou a pressão e desistiu. “Fracote”, pensou, desdenhando o assunto. Aliás, já se imaginava na roda de amigos contando os casos bizarros que ouviria durante o dia quando a primeira chamada tocou.

- Centro de Valorização da Vida, bom dia.

- Bom dia? Como assim bom dia?

- Desculpe, senhor?

- Você trabalha aí nesse troço onde só liga quem tá desesperado e me vem com “bom dia”? Tá querendo ser irônico? Dizer que tem um bom dia, uma boa vida, enquanto eu tô na merda? Quer saber, não preciso de vocês, bando de filhos da p*#@. Vou ligar pro disque-sexo.

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- Centro de Valorização da Vida, bom… err… bom, o que deseja?

- Tô arrasado. Minha namorada terminou comigo…ela era tudo pra mim, minha vida… acho que enjoou de mim… Só porque eu não conseguia satisfazer todos os seus desejos sexuais… Mas ela também tem que entender que eu não sou uma máquina! Preciso dormir pelo menos oito horas por dia…

- E ela é bonita?

- Sim, muito.

- Vamos fazer o seguinte: você esquece essa mocréia, ela não te merece, é uma ninfomaníaca descontrolada. Agora, me passe o numero de telefone dela para que eu possa estar entrando em contato e me certificando que ela não mais incomode o senhor, ok?

- Tu..tudo bem. Obrigado, acho. o Telefone é XXXX-XXXX.

- O C.V.V. agradece muitíssimo a sua ligação!!

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- C.V.V.  em que posso ajudar?

- Não aguento mais! Vou tirar minha própria vida! Depois de 30 anos trabalhando de sol a sol, o dia inteiro, com todas as forças e sem nunca ganhar aumento, meu chefe me demitiu! Demitiu!

- E essa raiva toda que está sentindo seria aplacada se o seu chefe se ferrasse também?

- Hmm, acho que sim.

- Aí está a solução. Mate seu chefe.

- Quê? Matar meu chefe? Mas… pera aí, você pode me dar um conselho desses?

- Meu trabalho é evitar que as pessoas cometam suicídio. O manual de procedimento não diz nada sobre assassinatos. Antes ele que você certo?

- Certo, certíssimo. Muito obrigado. Vou buscar minhas facas.

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- C.V.V. pois não?

- Não há mais esperança para mim! Já fui muito rico, e hoje estou falido! Minhas fazendas, Iates, campos de golfe, cassinos, ilhas com celebridades, jacuses com ornamentos de ouro, conta no Itaú Personalité, tudo se foi! Vão tomar minha casa e até já cortaram a luz e a água, só falta cortarem o telef…

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- C.V.V. na escuta bravo-2

- Preciso desabafar com alguém… Preciso de uma direção. Eu costumava ser o palhaço Pagliacci, fazia todos rirem, mas agora quero tirar minha própria vida.

- Hahahahahaha! Desculpa, desculpa, mas fico imaginando a cena de um palhaço se matando… hahahaha. Com o quê? Uma arminha d’água ou uma corda de lenços amarrada no pescoço? Hahaha.

- Não posso mais continuar vivendo, pois ninguém mais ri de mim. Um palhaço que não causa riso é um… hei! Você ainda está rindo? Rindo de mim? Obrigado! Eu ainda tenho graça, alguém ri de mim! De hoje em diante serei “Pagliacci, o palhaço suicida”! Ousado, genial, engraçado. Viva!

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- C.V.V. Onde sua desgraça é meu prazer.

- Alô, é da C.V.V.? Não estou ligando para desabafar, mas para comunicar que meu suicídio já está decidido.

- E qual seria o motivo da morte, senhor?

- Bom, eu sou um grande astro do Rock, todos me conhecem, me veneram, posso ter qualquer coisa, qualquer garota.  Mas ainda sinto um vazio que não consigo preencher. A morte no auge será o meu legado, me fará conhecido não só hoje, mas por décadas. Escreverão livros sobre mim e talvez até filmes. Serei eterno.

- Olha, sinceramente, Sr. Guitar-Hero, acho que o sr, está blefando. Quem tem tudo isso não quer morrer, na hora H vai amarelar, vai querer aproveitar mais os frutos do sucesso.

- Seu atendentezinho de merda, fique sabendo que quando eu digo algo, nunca volto atrás! Vou me matar SIM, ou meu nome não é KURT COBAIN.

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- C.V.V. Que é?

- Estou deprimido. Sinto que as pessoas não ligam pra mim. Minha família, meus amigos, ninguém me ouve, ninguém! Não suporto mais essa situação, todos me ignoram como seu eu fosse invisível…Alô? Alô?

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- C.V.V. Desembucha!

- Cheguei no fundo do poço. Não resta nenhuma esperança. Já fui de tudo nessa vida, mas agora vejo que não dá mais pra me enganar. Minha vida não vale nada. E meu último emprego só ajudou a me empurrar para o buraco.

- E que emprego era esse?

- Eu costumava ser atendente do C.V.V.

7 comentários:

  1. Olá Lucas!
    seria possivel vc entrar em contato comigo pelo e-mail central@cvv.org.br, queria conversar sobre sua postagem sobre o CVV.
    Obrigada!

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  2. kkkkkkkk ^^ Fuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

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  3. nossa q absurdo!
    nem de longe as coisas acontecem assim...
    pq denegrir o cvv e seu voluntariado dessa forma?

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  4. Oi, Adriana. Obviamente, eu sei que as coisas no CVV não são assim, e que eles fazem um trabalho admirável. A escolha em retratar essa instituição foi unicamente por que ela é a única conhecida da maioria das pessoas, desempenhando no texto apenas um papel de pano de fundo. O humor vem justamente da inversão do papel dessa instituição, o que não reflete de forma alguma a realidade.

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  5. Aliás, recomendo uma visita ao site deles pra quem quiser saber mais sobre o magnífico trabalho que eles fazem: http://www.cvv.org.br/

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